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O que está crescendo sobre a árvore é problema?

  • há 11 horas
  • 12 min de leitura

Musgos, líquens, samambaias, orquídeas, bromélias, erva-de-passarinho e fungos: o que o arborista precisa observar

arborista observando uma arvore com epifitas
Arborista inspecionando uma árvore.

Quando alguém olha para uma árvore e vê alguma coisa crescendo no tronco, nos galhos ou na copa, é comum vir a pergunta:

“Isso está matando a árvore?”

Essa é uma dúvida muito frequente em clientes, síndicos, jardineiros, podadores e profissionais que estão entrando no universo da arboricultura.

E a resposta é: depende do que está crescendo ali.

Nem tudo que vive sobre uma árvore é praga, doença ou sinal de risco. Em muitos casos, aquilo faz parte da biodiversidade associada à árvore. Em outros, pode indicar um ambiente mais úmido, pouca circulação de ar, acúmulo de matéria orgânica, crescimento lento da árvore ou alguma condição que merece atenção.

Mas existem casos em que sim: aquilo que está sobre a árvore pode competir, parasitar, esconder defeitos ou indicar decomposição da madeira.

Por isso, o papel do arborista não é simplesmente “limpar” a árvore. O primeiro passo é observar, identificar e entender a relação daquele organismo com a árvore.

Uma árvore não é um poste. Ela é um organismo vivo e também serve de abrigo, suporte e ambiente para muitas outras formas de vida.

árvore com epífitas arbolab


Antes de chamar de problema, entenda a relação

Uma boa avaliação não começa perguntando apenas:

“O que é isso sobre a árvore?”

A pergunta mais importante é:

“Qual é a relação disso com a árvore?”

Aquilo pode estar usando a árvore apenas como apoio. Pode estar se aproveitando da umidade da casca. Pode estar crescendo em matéria orgânica acumulada em uma forquilha. Pode estar competindo por luz. Pode estar retirando água e nutrientes da árvore. Ou pode estar indicando que existe madeira em decomposição.

São situações diferentes.

Na arboricultura, o erro mais comum é colocar tudo no mesmo pacote e chamar qualquer coisa de “praga”.

Musgo não é erva-de-passarinho.Líquen não é doença.Orquídea não é parasita.Samambaia epífita não é a mesma coisa que cipó.Tillandsia não está sugando a árvore.Fungo sobre madeira estrutural não deve ser ignorado.

Cada caso exige um olhar diferente.

O que são plantas epífitas?

Antes de falar de orquídeas, bromélias, tillandsias e algumas samambaias, é importante entender o que são epífitas.

Epífitas são plantas que vivem sobre outras plantas, normalmente sobre troncos, galhos e forquilhas, mas sem retirar alimento diretamente da árvore.

A palavra epífita vem da ideia de “planta que cresce sobre outra planta”. Mas crescer sobre a árvore não significa parasitar a árvore.

A árvore, nesse caso, funciona como suporte físico. A epífita se aproveita da posição elevada para acessar luz, umidade, ventilação e matéria orgânica acumulada. Ela pode absorver água da chuva, umidade do ar e nutrientes presentes em poeira, folhas decompostas e pequenos resíduos orgânicos.

Essa é uma diferença essencial:

Epífita usa a árvore como suporte.Parasita usa a árvore como fonte de recursos.

Orquídeas, muitas bromélias, tillandsias e algumas samambaias são exemplos de epífitas. Já a erva-de-passarinho é outro caso, porque ela se conecta aos tecidos da árvore e retira água e sais minerais.

Por isso, não devemos tratar todas as plantas que crescem sobre árvores da mesma forma.


Musgo na árvore
Musgo nos vãos da casca da árvore

Musgos: geralmente não são o problema

O que muita gente chama de musgo costuma aparecer em troncos, raízes aparentes, pedras, muros e locais úmidos e sombreados.

Os musgos fazem parte do grupo das briófitas. São plantas pequenas, simples, sem vasos condutores verdadeiros como as plantas superiores. Elas dependem bastante da umidade e crescem bem em locais sombreados, frescos e com boa retenção de água.

O musgo não está parasitando a árvore. Ele não penetra profundamente para retirar seiva. Ele está usando a casca como superfície de fixação.

Então, em geral, o musgo não precisa ser removido.

Mas ele pode ser uma pista.

Quando encontramos muito musgo em uma árvore, isso pode indicar:

  • ambiente muito úmido;

  • pouca entrada de sol;

  • baixa circulação de ar;

  • excesso de irrigação;

  • sombreamento constante;

  • casca com muita retenção de umidade;

  • acúmulo de matéria orgânica.


O musgo não é o vilão. Mas ele pode mostrar que o ambiente merece uma avaliação melhor.

O arborista deve observar se junto com o musgo existem outros sinais: casca solta, cavidades, madeira mole, fungos, galhos secos ou declínio da copa.

O problema pode não ser o musgo. O problema pode ser a condição que favoreceu o crescimento dele.


Líquen rosa na casca da árvore
Líquen rosa na casca da árvore

Líquens: sujeira, doença ou bioindicador?

Outro organismo muito comum em troncos e galhos são os líquens.

Eles aparecem como manchas acinzentadas, esbranquiçadas, verdes, amarelas, alaranjadas ou até escuras na casca das árvores. Muitas pessoas olham para isso e pensam que é fungo, sujeira, doença ou sinal de que a árvore está morrendo.

Mas, não é isso.

O líquen é uma associação entre organismos diferentes, principalmente um fungo e uma alga ou cianobactéria, vivendo em uma relação simbiótica.

Ele usa a casca da árvore como suporte, mas não retira seiva da árvore. Ele não se comporta como erva-de-passarinho e não deve ser tratado como doença.

Na prática, líquens costumam ser mais importantes como bioindicadores do que como problema direto para a árvore.

Como eles absorvem água e nutrientes diretamente do ambiente, são sensíveis às condições atmosféricas. Por isso, muitas vezes são usados em estudos ambientais relacionados à qualidade do ar, umidade e alterações no ambiente.

Mas aqui é importante tomar cuidado com interpretações simplistas.

Não é porque tem líquen que a árvore está doente.Não é porque tem líquen que a árvore está perfeitamente saudável.E não é porque não tem líquen que o ambiente está ruim.

O líquen é uma pista, não um diagnóstico completo.

Em árvores com crescimento mais lento, casca antiga ou pouca renovação superficial, os líquens podem ficar mais visíveis. Isso pode acontecer em árvores saudáveis, mas também em árvores sob algum estresse. Por isso, o arborista precisa olhar o conjunto.

Observe:

  • vigor da copa;

  • presença de brotações;

  • quantidade de galhos secos;

  • histórico de poda;

  • feridas antigas;

  • compactação do solo;

  • disponibilidade de água;

  • presença de fungos;

  • cavidades ou podridões;

  • condição geral da árvore.

O erro seria raspar o líquen achando que está “tratando” a árvore. Essa raspagem pode ferir a casca e criar uma porta de entrada para problemas reais.

Na maioria dos casos, o líquen deve ser observado e mantido.

Samambaias e Microgramma: pteridófitas usando a árvore como suporte

Outro grupo muito comum em árvores são as samambaias.

Um exemplo que aparece bastante em troncos e galhos é a Microgramma, aquela samambaia rasteira, com rizomas que se espalham sobre a casca.

As samambaias fazem parte do grupo chamado de pteridófitas. São plantas vasculares, não produzem flores nem sementes e se reproduzem por esporos.

Muitas samambaias que crescem em árvores são epífitas.

Ou seja, vivem sobre outra planta, mas sem parasitá-la. Elas usam a árvore como suporte físico, aproveitando luz, umidade, matéria orgânica acumulada e condições favoráveis.

Então, uma Microgramma crescendo sobre o tronco ou em galhos normalmente não é um problema direto para a árvore.

Mas existe contexto.

Microgramma
Microgramma

Se a samambaia está em pequena quantidade, bem distribuída e sem grande acúmulo de peso, ela pode ser considerada parte da biodiversidade associada à árvore.

Agora, se existe uma grande massa vegetal acumulada em forquilhas, com retenção de água, matéria orgânica e peso sobre galhos frágeis, o arborista precisa avaliar melhor.

O problema pode não ser a samambaia em si, mas o conjunto:

  • peso acumulado;

  • umidade constante;

  • substrato retido na forquilha;

  • galhos com defeitos;

  • casca inclusa;

  • cavidades;

  • podridão;

  • dificuldade de inspeção.

Na arboricultura, raramente avaliamos um único sinal isolado. Avaliamos o conjunto.

Orquídeas: bonitas, epífitas e geralmente inofensivas

As orquídeas que crescem sobre árvores são um ótimo exemplo de planta epífita.

Elas se fixam na casca, aproveitam luz, umidade do ar, água da chuva e pequenos nutrientes presentes no ambiente.

orquidia árvore
Orquídia presa em árvores - Não recomenda-se amarrar com fitas, arames ou cordas.

Elas não são parasitas.

A raiz da orquídea se prende à superfície, mas não invade a árvore para roubar seiva. Por isso, quando encontramos orquídeas em árvores, estamos vendo uma relação de suporte, não de agressão.

Esse é um ponto importante:

estar sobre a árvore não significa estar prejudicando a árvore.

O cuidado maior deve ser com remoções desnecessárias. Muitas vezes, ao tentar “limpar” a árvore, a pessoa arranca casca, fere tecidos vivos e cria um problema que não existia.

Em muitos casos, a melhor decisão é não mexer.




Bromélias e Tillandsias: plantas do ar

As bromélias epífitas e as Tillandsias também são muito comuns sobre árvores.


bromelia arvore arbolab
Bromélia árvore

As Tillandsias são conhecidas popularmente como “plantas do ar”. Elas conseguem absorver umidade e nutrientes principalmente pelas folhas, usando estruturas especializadas. Suas raízes, em muitos casos, funcionam mais para fixação do que para absorção de água e nutrientes.

Assim como as orquídeas epífitas, elas não são parasitas.

Elas podem crescer sobre galhos, troncos, pedras, cercas, fios e outras superfícies. Na árvore, aproveitam a posição elevada, a luz e a umidade.


bromelia crescendo no fio
Bromélia crescendo no fio

Em pequena ou média quantidade, normalmente não representam problema para a árvore.

Porém, quando há grande acúmulo de bromélias, matéria orgânica e água em galhos com defeitos, o arborista deve avaliar peso, retenção de umidade e condição estrutural do galho.

Mais uma vez: não é uma regra automática de “tem que tirar” ou “não pode tirar”.

É avaliação técnica.



O que é uma planta parasita e uma hemiparasita?


Para entender melhor a erva-de-passarinho, precisamos diferenciar alguns conceitos importantes: epífita, planta parasita, parasita total e hemiparasita.

Uma planta epífita, como muitas orquídeas, bromélias, tillandsias e samambaias, vive sobre outra planta, mas usa a árvore apenas como suporte. Ela não penetra nos tecidos vasculares da árvore para retirar seiva.

Já uma planta parasita estabelece uma conexão direta com a planta hospedeira. Ela desenvolve estruturas especializadas chamadas haustórios, que penetram nos tecidos da árvore e se conectam ao sistema vascular da planta.

É aí que está a grande diferença.

A planta parasita não está apenas apoiada sobre a árvore. Ela está ligada fisiologicamente a ela.

Para entender isso, precisamos lembrar que a planta possui dois sistemas vasculares principais:

xilema e floema arbolab

Xilema: conduz principalmente água e sais minerais absorvidos pelas raízes. É por onde sobem elementos como nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e outros nutrientes minerais dissolvidos na seiva bruta.

Floema: conduz principalmente a seiva elaborada, rica em compostos produzidos pela fotossíntese, especialmente açúcares, como a sacarose, além de outros compostos orgânicos, como aminoácidos e sinais químicos.


Uma planta parasita total, também chamada de holoparasita, depende muito mais da hospedeira. Ela não realiza fotossíntese de forma eficiente ou perdeu essa capacidade. Por isso, precisa retirar da planta hospedeira não apenas água e sais minerais, mas também compostos orgânicos prontos, como açúcares, carboidratos e outras substâncias produzidas pela árvore.

Nesse caso, a conexão com o floema é muito importante, porque é nele que circulam os açúcares e carboidratos produzidos nas folhas e distribuídos para outras partes da planta.

Já uma planta hemiparasita é diferente.

Ela também se conecta à planta hospedeira por meio dos haustórios, mas ainda possui clorofila e consegue realizar fotossíntese. Ou seja, ela produz parte importante dos seus próprios carboidratos usando luz, gás carbônico e água.

Por isso, muitas hemiparasitas retiram da árvore principalmente água e sais minerais, acessando o xilema da hospedeira.

É o caso de muitas ervas-de-passarinho.

A erva-de-passarinho possui folhas verdes e faz fotossíntese, mas não é independente como uma epífita. Ela se conecta ao galho da árvore e retira principalmente água e nutrientes minerais da seiva bruta. Com isso, pode enfraquecer ramos, reduzir o vigor da copa e competir com a árvore hospedeira, principalmente quando ocorre em grande quantidade.

De forma simples:

Epífita: usa a árvore como suporte. Hemiparasita: faz fotossíntese, mas retira água e sais minerais da árvore, principalmente pelo xilema. Parasita total ou holoparasita: depende mais profundamente da hospedeira e pode retirar também açúcares, carboidratos e outros compostos orgânicos, geralmente associados ao floema.

Por isso, uma orquídea, uma bromélia ou uma samambaia epífita não devem ser confundidas com uma erva-de-passarinho.

A orquídea está sobre a árvore, mas não retira seiva dela.A bromélia está sobre a árvore, mas usa principalmente água da chuva, umidade do ar e matéria orgânica acumulada. A erva-de-passarinho, por outro lado, se conecta aos tecidos vasculares da árvore e retira recursos dela.

Na arboricultura, essa diferença é fundamental para decidir se a planta deve ser mantida, monitorada ou manejada.

Erva-de-passarinho: aqui a conversa muda


A erva-de-passarinho é diferente dos musgos, líquens, samambaias, orquídeas e bromélias epífitas.

Ela é uma planta hemiparasita.

Isso significa que ela faz fotossíntese, mas também retira água e sais minerais da árvore hospedeira por meio dos haustórios.

Esses haustórios penetram nos tecidos da árvore e estabelecem uma conexão com ela.

Por isso, a erva-de-passarinho merece atenção especial na arboricultura urbana.

Quando aparece em pequena quantidade, pode ser manejada com poda criteriosa. O ideal é remover a parte afetada considerando o ponto de inserção, o diâmetro do galho, a arquitetura da copa e a capacidade da árvore de responder à poda.

O erro comum é cortar apenas a parte verde da erva-de-passarinho e deixar a região de fixação no galho. Em muitos casos, ela rebrota.

Em infestações avançadas, a erva-de-passarinho pode reduzir o vigor da árvore, comprometer setores da copa e dificultar a recuperação do indivíduo.

Mas também precisamos lembrar que ela tem uma relação ecológica com aves, que consomem seus frutos e dispersam as sementes.

Então o objetivo não é tratar a natureza como inimiga. O objetivo é manejar corretamente quando há impacto sobre árvores urbanas, ornamentais, frutíferas, históricas ou árvores em locais com risco.

O manejo deve considerar:

  • intensidade da infestação;

  • espécie da árvore;

  • vigor da copa;

  • quantidade de galhos afetados;

  • possibilidade de poda sem mutilação;

  • época adequada;

  • risco do local;

  • objetivo do manejo.


Danos causados pela erva de passarinho
Danos causados pela erva de passarinho
Danos causados pela erva de passarinho
Danos causados pela erva de passarinho

Na seção do galho, é possível observar alterações escuras no lenho próximas ao ponto de fixação da erva-de-passarinho. Essas marcas indicam que a relação não é apenas superficial: a planta hemiparasita penetra no galho por meio dos haustórios e se conecta ao sistema vascular da árvore.












Essa conexão ocorre principalmente com o xilema, tecido responsável pelo transporte de água e sais minerais. Por isso, a erva-de-passarinho, mesmo realizando fotossíntese, retira parte desses recursos da hospedeira.

As imagens ajudam a diferenciar uma epífita de uma hemiparasita: enquanto orquídeas, bromélias e samambaias epífitas usam a árvore como suporte, a erva-de-passarinho estabelece uma ligação interna e retira recursos da planta.













Fungos sobre árvores: quando acende a luz amarela

Quando falamos de fungos, a conversa muda bastante.

Diferente de musgos, líquens, orquídeas, bromélias e muitas samambaias epífitas, alguns fungos podem estar relacionados à decomposição da madeira.


Eles podem aparecer como:

Corpo de frutificação do fungo
Corpo de frutificação do fungo
  • cogumelos;

  • orelhas-de-pau;

  • prateleiras;

  • crostas;

  • placas;

  • estruturas endurecidas;

  • massas fúngicas na base, tronco, galhos ou raízes.


Essas estruturas visíveis são os corpos de frutificação do fungo. Elas são apenas a parte aparente. O fungo já está atuando internamente na madeira antes de aparecer do lado de fora.

Por isso, fungo sobre árvore viva não deve ser ignorado.

Mas também não devemos tratar todos os fungos da mesma forma.

Existem fungos decompositores atuando em galhos mortos, tocos, madeira seca ou partes já mortas da árvore. Nesses casos, eles estão participando da decomposição natural da matéria orgânica.

Por outro lado, quando aparecem corpos de frutificação no tronco principal, na base da árvore, em raízes aparentes, em cavidades, em feridas antigas de poda ou próximos a grandes uniões de galhos, o arborista precisa avaliar com muito mais cuidado.

Pode haver podridão interna, perda de resistência da madeira ou comprometimento estrutural.



Corpo de frutificação do fungo
Corpo de frutificação do fungo

Sinais que merecem atenção:

  • cogumelos ou orelhas-de-pau na base da árvore;

  • fungos associados a cavidades;

  • fungos próximos a feridas antigas;

  • madeira mole, escura, esfarelada ou quebradiça;

  • som oco no tronco;

  • galhos grandes com corpos de frutificação;

  • queda de galhos com madeira apodrecida;

  • copa em declínio junto com sinais de decomposição;

  • raízes com sinais de podridão;

  • inclinação recente da árvore;

  • rachaduras no solo próximo à base.

O fungo nem sempre é a causa inicial do problema. Muitas vezes, ele entra depois de uma ferida, poda mal feita, quebra de galho, impacto de máquina, compactação do solo, obra, corte de raiz ou estresse da árvore.

Na arboricultura, a presença de fungos deve acender uma luz amarela.

Não é motivo para pânico automático.Mas também não é algo para ignorar.

É caso de inspeção mais criteriosa, principalmente quando a árvore está em local com circulação de pessoas, veículos, imóveis, redes elétricas ou estruturas próximas.


O maior erro: querer “limpar” a árvore

Um erro comum é achar que toda árvore precisa estar com o tronco “limpo”.

Só que árvore não é poste, não é parede e não é mobiliário urbano.

A casca da árvore pode abrigar vida. Pode ter musgos, líquens, samambaias, orquídeas, bromélias e outros organismos que fazem parte daquela paisagem.

Remover tudo sem critério pode causar mais dano do que benefício.

Raspar líquens, arrancar orquídeas, puxar bromélias, remover samambaias ou limpar troncos com ferramentas inadequadas pode ferir a casca e abrir portas para fungos, pragas, desidratação de tecidos e apodrecimento.

O arborista precisa aprender a diferenciar:

  • o que é biodiversidade;

  • o que é bioindicador;

  • o que é competição;

  • o que é parasitismo;

  • o que é sinal de decomposição;

  • o que realmente exige intervenção.

Essa diferença muda completamente a conduta.

Guia rápido de avaliação

De forma simples, podemos pensar assim:

Normalmente não são problema direto

  • Musgos;

  • líquens;

  • orquídeas epífitas;

  • bromélias epífitas;

  • Tillandsias;

  • pequenas samambaias epífitas, como Microgramma.

Esses organismos geralmente usam a árvore como suporte e não retiram seiva dela.

Merecem observação

  • Grande acúmulo de plantas em forquilhas;

  • excesso de umidade;

  • matéria orgânica acumulada;

  • peso sobre galhos frágeis;

  • plantas escondendo defeitos;

  • crescimento intenso sobre árvores debilitadas;

  • sinais associados a cavidades, podridão ou galhos secos.

Nesses casos, o problema pode estar no conjunto, não necessariamente na planta em si.

Exigem mais atenção técnica

  • Erva-de-passarinho;

  • lianas dominando a copa;

  • cipós aumentando peso ou competição;

  • fungos no tronco, base, raízes ou galhos estruturais;

  • corpos de frutificação associados a cavidades;

  • sinais de podridão ou perda de resistência da madeira.

Aqui a avaliação precisa ser mais cuidadosa.

Perguntas que ajudam na avaliação

Antes de remover qualquer coisa, pergunte:

  1. Isso está apenas apoiado na casca ou está penetrando nos tecidos da árvore?

  2. Usa a árvore como suporte ou retira recursos dela?

  3. Está em pequena quantidade ou dominando a copa?

  4. Está aumentando peso sobre galhos?

  5. Está retendo muita umidade?

  6. Está acumulando matéria orgânica em forquilhas?

  7. Está escondendo cavidades, rachaduras ou galhos secos?

  8. A árvore está vigorosa ou apresenta declínio?

  9. Existe fungo associado?

  10. O local oferece risco para pessoas, carros, casas ou redes elétricas?

Essas perguntas ajudam o profissional a sair do achismo e construir uma avaliação mais técnica.

Arboricultura é observação antes de intervenção

Na arboricultura, nem sempre a melhor ação é remover.

Às vezes, a melhor decisão é manter.Às vezes, é monitorar.Às vezes, é manejar com cuidado.E, em alguns casos, é intervir para preservar a segurança, a saúde da árvore e o equilíbrio do local.

O importante é não agir no automático.

Antes de chamar de praga, identifique.Antes de remover, avalie.Antes de raspar, pense no dano que pode causar.Antes de condenar uma árvore, entenda o conjunto.

Uma árvore pode carregar muito mais vida do que imaginamos. E parte do trabalho do arborista é aprender a reconhecer essa vida, separar o que é natural do que é problema e tomar decisões com responsabilidade técnica.

Esse olhar é o que diferencia uma poda comum de uma arboricultura bem feita.




Felipe Silveira

Arborista Certificado ISA, n. BR-0024-A

Especialista em Arborização Urbana pela UFRRJ

Técnico Agrícola

 
 
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